Por anos, riscos psicossociais foram tratados como “clima”, “percepção” ou “assunto de RH”. Só que a realidade (e o impacto) já deixou isso para trás: depressão e ansiedade estão associadas a uma perda estimada de 12 bilhões de dias de trabalho por ano, com custo de quase US$ 1 trilhão para a economia global.
E no Brasil, o tema acelerou de vez: riscos psicossociais entram expressamente no GRO/PGR da NR-01 com vigência em 26 de maio de 2026 (Portaria MTE nº 765/2025, conforme texto consolidado da norma).
O que isso significa na prática? Que “opinião” (achismo, impressão, narrativa isolada) perde força. Dados ganham centralidade: para identificar, avaliar, priorizar, agir e comprovar evidências.
Por que “opinião” falha (e por que isso vira risco)
Quando o diagnóstico é baseado em percepções soltas, surgem quatro problemas recorrentes:
- Viés de amostragem: quem fala não representa o todo (ou só fala quando já virou crise).
- Viés de medo e silêncio: em temas sensíveis (assédio, conflito, carga), a ausência de relato não significa ausência de risco.
- Baixa comparabilidade: sem métrica consistente, você não sabe se melhorou, piorou ou só “mudou o discurso”.
- Plano genérico: sem granularidade, o plano vira “treinar liderança” e “campanha de bem-estar” — ações difíceis de provar efetividade.
Isso é especialmente crítico agora porque a NR-01 passa a exigir gestão estruturada do risco — não “uma boa intenção”.
O que muda quando você mede com dados
Medir com dados não é “fazer uma pesquisa anual”. É criar um sistema contínuo de gestão do risco psicossocial, conectado ao GRO:
1) Você sai do “clima” e entra no “risco ocupacional”
Na lógica do GRO, risco envolve probabilidade x severidade x exposição. Com dados, você consegue:
- medir exposição por área/função/turno
- identificar tendência (piora/melhora)
- comparar unidades com critérios iguais
- priorizar com base em criticidade (e não em quem “gritou mais alto”)
Isso transforma o tema em gestão — e não debate.
2) Você enxerga “hotspots” (e para de agir no escuro)
Com recortes (unidade, diretoria, função, liderança, turno), você encontra hotspots: onde o risco cresce, onde a adesão cai, onde há concentração de indicadores negativos.
Sem esse recorte, o risco vira média geral — e média geral esconde problema.
3) Você ganha trilha de evidências (o que salva em auditoria)
NR-01 não é só sobre “ter um PGR”. É sobre demonstrar processo, ação e melhoria. O dado viabiliza:
- histórico (baseline → ciclos)
- decisões registradas (por que priorizamos X vs Y)
- plano de ação com dono, prazo e evidência
- monitoramento de execução e efetividade
Esse pacote reduz insegurança jurídica e acelera governança.
Dados que importam: o “mínimo viável” para gestão psicossocial
Para ser técnico e operacional, pense em 4 camadas:
Camada A — Medição estruturada (quantitativa)
Você quer medir fatores que tipicamente aparecem em frameworks de risco psicossocial e boas práticas internacionais, como a orientação da ISO 45003 (gestão de risco psicossocial dentro do sistema de SST).
Exemplos de dimensões úteis:
- demanda / carga / ritmo
- autonomia e controle
- clareza de papel
- suporte do gestor e do time
- relações e conflitos
- justiça organizacional
- assédio e violência (quando aplicável)
- equilíbrio vida-trabalho
Camada B — Sinal qualitativo (texto)
Comentários e campos abertos são ouro — se você tiver capacidade de análise:
- agrupamento de temas (cluster)
- tendência por área
- identificação de tópicos emergentes (“sinal fraco”)
Camada C — Indicadores operacionais correlatos
Para convencer liderança (CFO/CEO), conecte com métricas que já existem:
- absenteísmo
- rotatividade
- incidentes / quase-acidentes (dependendo do contexto)
- produtividade (quando houver proxy)
- uso de canais internos (quando fizer sentido)
Camada D — Execução e evidência
Sem isso, medir vira pesquisa de clima:
- plano de ação com SLA
- evidências anexas (com controle de acesso)
- check de conclusão + impacto
Como a IA ajuda (de forma prática, não “buzzword”)
IA é útil quando reduz custo operacional e aumenta precisão:
1) Detecção de anomalias e “quedas” de adesão
Em temas sensíveis, queda de participação pode ser sinal de baixa confiança, medo ou ruído de comunicação. IA ajuda a detectar padrões fora do normal e disparar alertas (por área/turno).
2) Análise de texto em escala
Classificar milhares de comentários manualmente não escala. IA permite:
- categorizar tópicos
- mapear recorrência
- priorizar por criticidade/tendência
3) Recomendação de ações com contexto
A IA pode sugerir ações típicas por tipo de risco (carga, conflito, liderança, jornadas) e ajudar a sair do plano genérico — sempre com validação humana.
4) Governança de evidências
Organizar rastros (versões, anexos, responsáveis, prazos) é onde a maioria das empresas “quebra”. Automação + IA ajudam a manter auditoria pronta.
NR-01 2026: por que isso virou urgência agora
A vigência de 26 de maio de 2026 marca o ponto em que o tema deixa de ser opcional e passa a ser cobrado dentro do GRO/PGR.
E o “custo da inação” é real: o Brasil vem registrando números elevados de afastamentos associados à saúde mental, com reportagens e consolidações apontando patamares na casa de centenas de milhares em 2024, ampliando a pressão sobre empresas por prevenção e evidência.
Ou seja: dado não é só compliance. É proteção operacional.
Roteiro rápido de implementação (sem travar a empresa)
Semana 1–2 (fundação):
- governança (RH + EHS/SST + Compliance + liderança)
- política de anonimato e acesso
- modelo de score (probabilidade/severidade/exposição + tendência)
- baseline (primeiro ciclo)
Semana 3–6 (diagnóstico contínuo):
- campanhas curtas e direcionadas
- dashboards por recortes
- hotspots + priorização
Semana 7–12 (ação e evidência):
- plano com dono/prazo/evidência
- rituais (quinzenal/mensal)
- medição antes/depois
Onde a Livon entra nessa história
O ganho real está em transformar medição em rotina: coleta estruturada + analytics + priorização + plano de ação + evidências — com IA acelerando análise e reduzindo retrabalho.
Na prática, isso tira o tema do “campo da opinião” e coloca no “campo da gestão”: visível, comparável, auditável e acionável.
Se você quer sair do “achismo” e montar um modelo data-driven de riscos psicossociais alinhado à NR-01 2026, comece com um passo: baseline + score + plano de ação rastreável.

